Crônicas

POLICARPO

É Policarpo, seu país não veio, não vingou…

A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente…

Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias!

No trabalhador que sua e sangra e não descansa!

Na esquina em que se perde uma outra infância!

Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens.

Na promessa quebrada em que não há mais lembrança!

É Policarpo… Você sonhou um país que nunca existiu!

Aqui, o que plantam é mamata, rachadinhas, picuinhas, um arremedo de Brasil.

Um país que maltrata professores e livros!

Um país que não guarda a sua própria memória e vive errando a sua história.

Um país que idolatra políticos e influenciadores e desvaloriza conteúdos e autores.

É Policarpo… o avanço não veio. Não veio a utopia! E você não tem um cavalo que fuja a galope!

Tudo acabou! Tudo fugiu! Tudo mudou! E seu nome não é José!

Se você refizesse, se você reclamasse, se você mudasse, se você esquecesse… Mas você não está no poema de Drummond!

Você acredita em um país que jamais existiu!

Aqui, os piores são o exemplo. Os canalhas, os burocratas, os pilantras e sanguessugas ditam a moral! E, contra esse mal, parece que não há muito o que fazer! Desfazer?

Aqui, quem tem padrinho tem sucesso e “reconhecimento”!

Quem trabalha de verdade precisa trabalhar até a exaustão para se iludir com o crescimento!

É Policarpo… O melhor mesmo é sonhar. No sonho, o que nos resta, é possível ver e viver um outro país. É possível criar Pasárgada!

No sonho, é possível escrever uma nova história e, nesta história criada, pintar rostos diversos e sorrisos singulares que vão palmilhar muitos caminhos.

Nestes caminhos, a palavra Brasil terá, enfim, o significado de futuro…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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